quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Funcionários da Fome

Numa cama de colchão fino, em que a madeira sobressai o conforto, onde o sono não é profundo. Olha para cima e observa o movimento de insetos que estão a percorrer o teto do seu barraco. Já não há dor, até então não sentia o vazio no estômago, porém já baixou o efeito do crack e agora nada mais resta.

Mas não tem grana, não tem mais seu carrinho de catar papel. Não pode ir para o centro recolher moedas e guardar carros. Sua família não existe e de certa forma é melhor que seja assim. É cruel pra ele estar ali estático. E os insetos continuam percorrendo o barraco, estão em todas as partes, junto ao lixo, as latas, as cinzas.

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O terreno baldio estava ocupado por uma luz. Urubus faziam buscas por ali. Cheiro de podre no ar. Enfim eles encontram três corpos em meio há um córrego de esgoto que saia de uma favela próxima àquele terreno.

Um homem mais velho, uma mulher e uma criança largadas ali. Carniça suspeita, talvez de um crime, um acerto de contas ou algo nesse sentido, briga ligada ao tráfico. Mas por que a criança?

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Ainda na cama, ele não consegue se mover. A casa agora está sozinha, ele está com dor. Sangue por todo lado, cheiro de podre. Não há nada naquela casa além daquele morto vivo. A silhueta esquelética, olhos saltados. Não tem água pra beber, não tem água pra tomar banho.

Uma cólica vem como um raio. Ele grita de dor, se retorce, tem cãibra. Vomita e se movimenta na cama. Sangue e vomito uma vida em decomposição. A dor é lançada ao vento.

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Não há indícios de crime motivado pelo tráfico ou vingança. Não importa, os urubus não precisam entender muita coisa. Como cães farejadores seguem o rastro da morte, entram em becos, onde a esperança foi esquecida, as pessoas estão ao relento. Perto de um lixão existem habitantes, renegados, esquecidos.

Guiados pela luz, os urubus tem fome e querem mais comida. Pra eles é fácil rastrear, o cheiro é forte. Eles são famintos, não se surpreendem com tanto horror em meio à vida, em meio à correria do dia a dia, querem mais.

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Entra no barraco a sombra, aquele homem não se mexe. Começa a revirar os restos do que antes foi uma moradia. A sombra para em frente aquela imagem, ele só consegue mexer os olhos. Vê o movimento de um pedaço de pau erguer e o mirar. Suas últimas forças, um sorriso, o fim do sofrimento.

A sombra mata aquele ser vegetativo. Sem piedade. Uma pancada na cabeça e acaba a escuridão. A sombra larga o pau e vai embora, só tem uma porta na casa. Ela parte pra outras casas naquela região, vai pelo cheiro, segue o instinto.

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Os urubus chegam ao barraco, mais um corpo. Um esqueleto que estava vivo há pouco tempo, a carne estava fresca. Não há luz na moradia, não há condições de vida naquele lugar. Só sobras, resquícios. Mas a luz os guiou até o alimento, a fome parece não ter fim.

Mais mortes. Provavelmente aquele era o assassino daqueles três corpos que antes foram encontrados. A luz imaginou que a sombra havia passado por ali. Levou mais uma alma, deixou mais alimento.

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A sombra passa pelos barracos acabando com as vidas que restam. São pauladas, execuções de pessoas que já estavam com seus dias contados. É o trabalho sombrio, faz uma limpa na humanidade. Está levando as almas enquanto há tempo.

Seu vulto está saindo das vielas. Passa pelo lixão e retorna lentamente para a realidade. Só há escuridão. Sem alegria, sem sorrisos. Os pássaros jamais cantam por lá. Sem esperança e a certeza de que a morte fala mais alto do que uma oração.

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Os urubus saem dos barracos. Passam pelo lixão sombrio guiados pela luz. Voltam para realidade, entram em seus carros e voltam aos seus departamentos. Depois do expediente conseguem dormir após se alimentar.

Guiados pela luz vão até bares tomar cerveja e falar de mais um dia difícil. Outros vão até suas famílias, chegam tarde em casa, abraçam suas crianças na cama e deitam ao lado das esposas. Uns não conseguem dormir e saem por aí.

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Sentada na esquina a sombra reflete sobre o que viu mais uma vez, sobre seu trabalho. Funcionária da Fome foi buscar mais um homem, dessa vez um viciado em crack (a bola da vez), filho mais velho. Trabalharam, mendigaram, mas nada foi suficiente.

Vendo sua família morrer, resolveu matá-los e esperar a morte chegar. A Fome a chamou. Seco, sem vida. É só isso que me resta, aniquilar. Encontrar pessoas que estão clamando por mim. Necessitam morrer, pois não conseguiram se alimentar em vida. Então alimento vossas almas.

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A luz, a fonte de energia, a vida, também percorre as ruas. Encontra a sombra sentada na esquina. Se cumprimentam e olham uma nos olhos da outra. Trabalhos opostos e vidas opostas, mas ambas funcionárias da Fome. Alimentam, dão esperança, mas em diferentes perspectivas.

A sombra pergunta a luz:
- Por que as pessoas clamam por mim? Por que tenho tanto trabalho? Estou cansada!
- As pessoas também clamam por mim... também estou exausta sombra.
- Mas luz! Você é a fonte de vida, é o alimento na mesa das pessoas. Já eu sou a falta.
- Eu sei sombra, mas o que pode ser mais cruel do que os excessos?

2 comentários:

  1. Quando falta o inesperado, surge o inevitável...

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  2. inevitável inesperado inerte invisível

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