quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tudo pela arte

Santiago subia a rua e olhava pra trás, pros lados, pra cima, pra baixo... pra todos os lados. É o crack... passara o efeito das últimas pedras fumadas e ele ia em busca de mais. Avistou a boca e viu uma prisão em flagrante. Seu irmão “trampava” por lá, passava a droga.

Santiago parou atrás de um muro e ficou vendo a prisão. Duas horas antes, quando fez a outra correria, havia discutido com Ariel (seu irmão) pelo fato de pegar a droga sem pagar. Sua dívida já era alta e o próprio familiar havia o ameaçado.

Ariel foi pro X e Santiago sabia que seu pescoço estava na reta. Poderiam achar que ele deu uma de dedo de seta pra se livrar do problema. A polícia quebrou a boca e levou os traficantes. O jovem viciado viu tudo aquilo e resolveu descer a rua e procurar outra maneira de conseguir a droga.

Num assalto a mão armada com outros viciados, Santiago caiu e seu destino era encontrar Ariel no inferno.

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Este é o mundo em que vivemos.

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Era isso que quatro jovens estavam lendo nas páginas policiais.

- Cara... olha só, um traficante matou seu irmão na cadeia! A confusão foi porque um ‘caguetou’ o outro pra polícia...
- Sério... o próprio irmão mandou o outro pro inferno?
- Sim... é a tal da pedra né... destrói tudo.

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Quatro jovens haviam saído do ensaio da banda que tinham. Estavam sentados num boteco, conversavam e bebiam umas geladas. O jornal estava na mesa, logo começaram a folhar e ler o que estava em pauta no dia.

Sobre a banda. Bom... ensaiavam há bastante tempo, já faziam vários shows por aí. No repertório, vastas músicas covers de diversas grandes bandas. Porém um integrante estava descontente, queria botar algumas músicas próprias nos shows. A parte majoritária não concordava, preferia manter o trabalho, aprimorar outros sons e fazer shows nos bares de algumas cidades.

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No jornal também tinha matéria do Professor Pardal de Pato Bragado, aqui no Paraná. O cara criou triciclos elétricos para atender, principalmente, pessoas da terceira idade com dificuldades de locomoção. Na matéria mostrava um senhor que perdeu as pernas num acidente, estava impossibilitado de ir pra rua.

Então o cientista do interior fez um triciclo pro senhor acidentado. Sim... o Professor Pardal cria suas máquinas de acordo com o pedido. Faz personalizado e de forma primorosa. É uma obra de arte com fins sociais. Ganha dinheiro, patenteia a ideia e ajuda as pessoas. Não deixa de ser um negócio, mas também não deixa de ser arte.

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Este é o mundo em que vivemos.

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- Olha que pira esse Professor Pardal né... faz uns triciclos elétricos.
- Pois é... pelo menos alguém cria algo por aqui não é?
- Onde está querendo chegar meu chapa?
- É... qual o motivo do sarcasmo?
- Vocês sabem o motivo... sabem o que eu penso e sabem o que eu quero.
- Está ainda com essa ideia de música própria na cabeça meu velho?
- As duas notícias que lemos poderiam virar letra de música, uma sobre o tráfico de drogas e outra sobre um cientista regional... mas nós não estamos nem aí, não é?
- Não mesmo...
- É... não mesmo...

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Este é o mundo em que vivemos.

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As discussões já estavam no limite entre os integrantes daquela banda. Jovens sem instinto de criação? Pode ser um problema pra alguns, outros preferem não se importar. A arte também é assim... ela não se importa com você até que você se importe com ela. A hora que ela pega, pode crer que ficará no seu subconsciente... isso em todos os momentos.

Esse jovem procura a arte, está eufórico devido às últimas festas em que participou. Viu algumas bandas tocar músicas próprias e sabia que poderia fazer aquilo também. Era isso que estava disposto e por isso pagaria qualquer preço. É o preço da arte, da criação... muitas vezes não há compatibilidade, então é preciso mudar o nicho, buscar novos diálogos e encerrar outros. A arte o pegou e agora ele vai pagar o preço.

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- Vamos tomar a ‘saidera’?
- Manda vim...

Chega à última cerveja. Eles bebem e se preparam pra segunda parte do ensaio.

- Vamos passar o repertório novamente. Nosso show vai ficar muito bom.
- Não vou pro ensaio.
- Qual é cara... vamos lá... é o combinado!
- Estou fora da banda... não vou em mais nenhum ensaio.
- Por que cara?
- Porque isso pra mim não é arte.

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Virou as costas e foi embora... tudo pela arte.

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Este é o mundo em que alguns se dispõe a acreditar.

Um comentário:

  1. hahahaa... Didião e sua arte de escrever contos. Massa.
    Bj

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