quinta-feira, 4 de junho de 2009

Conspirações em minha casa - CAPÍTULO I

Já é tarde, mas não durmo. Uma sensação estranha. Parece que algo está pra acontecer! Nunca fui de ter premonições, porém hoje está estranho. Poucas ligações, nenhuma carta na redação dos meus amigos terroristas. “Vou levantar e tomar aquele vinho, está frio e algo pra esquentar cai bem... acho que vou conseguir dormir depois de uma garrafa”.

Sento em minha mesa, acendo um cigarro e mando ver. Três da manhã e nada do sono vir. “Algo está pra acontecer... isso é certo”. De súbito toca meu telefone fixo! “Que porra é essa... quem me liga uma hora dessas?”. Não atendo. Tenho muitos problemas pra ir atender um trote. E toca o telefone novamente! “É... parece que aconteceu algo, vou ver o que é”.

Quando pego e digo alô, a ligação cai. “Sabia que era trote... que merda”. Cinco minutos depois é o interfone do meu apartamento. “O que é isso? Essas horas?”. Desconfiado e curioso lá vou eu. “Quem é?” – “Abre a porra da sua porta logo, rápido!” – “Quem é porra?” – “É o Olho de Gato merda... não reconhece minha voz?” – “O que? Você aqui?” – “Abre a porta cara!”.

...

“Como este insano descobriu onde moro, o que ele veio fazer aqui?” – me pergunto. Deixei a porta entre aberta, pois sabia que o maldito entraria direto. Esse momento é mais que nostálgico pra mim, uma lenda da investigação criminosa, das conspirações, do terrorismo, estava prestes a pisar em minha casa.

Ele entra tropeçando, com muita pressa, olhos esbugalhados e vai dizendo: “Como é que é, tem alguma coisa pra beber?” – “Porra, como eu vou saber que é você o Olho de Gato?” – tira uma 380 e aponta pra mim – “Acho que eu estou de brincadeira? Tem muita coisa acontecendo por aí pra você ficar dormindo até essas horas!” – “Mas já se passaram das três da manhã merda, queria que eu estivesse fazendo o que?”.

...

Olho de Gato tinha sumido há anos. Comunicávamos por carta. Dessa vez sua presença me assustou. Mas não deixei de estar feliz, porque sabia que notícias viriam.

...

“Estou sendo perseguido novamente!” – me diz ele. “Esperava alguma novidade meu velho” – “Mas dessa vez creio que é um velho amigo que está atrás de mim!” – “Sério!” – “Você acha que eu estou de brincadeira seu jornalista debochado, te meto uma bala na cabeça porra!” – “Calma maluco, o que você quer que eu faça, pule da janela?”.

Olho de gato andava pra lá e prá cá entende. Parecia um noiado na fissura. Não quis perguntar nada, mas também não interessava. O problema agora é que ele em minha residência acarreta vários fatores: se ele está sendo procurado, alguém está o seguindo, então eu passo a ser um alvo também. Merda! Estou precisando mesmo de adrenalina.

“Vamos meu caro, o que te aflige?” – “As coisas estão acontecendo, você não percebe ao seu redor?” – “O que, por exemplo?” – “O poder! Sim o poder! A guerra de etnias! A guerra pelo poder! Isso já não é o suficiente?” – “Está sendo superficial... que merda... seja objetivo... não vem filosofar... abre a outra garrafa de vinho logo e vamos trocar uma idéia” – “Cara... o que você lembra sobre o Joe Joe Jabadu Junior?” – “Lembro do que você me contou... terrorismo na Angola... ataque ao World Trade Center... que ele pode ser o Osama... essas coisas!” – “Pois é... mas a coisa está mais foda do que antes” – “Como assim?” – “A conspiração agora é globalizada!” – “Sim... até acredito que seja, mas você tem alguma prova... ou somente sua imaginação?” – “Espera um pouco”.

...

Olho de Gato sai do banheiro alucinado. Suas ventas estão brancas. A garganta trancada. “Porra... foi cheirar no meu banheiro seu lunático?” – “Pois é cara... antes de chegar por aqui estava na Colômbia... muitas coisas estão acontecendo por lá... todos estão com medo cara... todo mundo está com medo!” – “Mas do que você está falando?” – “Só escuta!”.

...

“Eu conheço o Joe Joe Jabadu Junior... você sabe disso. Então eu sei das suas idéias, do que ele prepara... porra... ele derrubou dois prédios! Mas então... Estou acompanhando esta crise. Nada de novo não é? Você que pensa. Poucos sabem, mas a filha de Joe Joe era uma junkie desvairada, subia pelas paredes entende... pois então... ela morreu faz alguns anos. Um acidente de carro que ninguém conseguiu explicar.

Estava na estrada e sem motivo aparente se perdeu numa curva e desceu um barranco. Fizeram a vistoria, sabotaram o carro dela. Sabe a marca do carro? GM! Entendeu? A GM decretou falência meu camarada, já abriu as pernas em Nova Iorque e você acha que foi por acaso? - “Tá cara... mas o que isso tem a ver contigo porra?”.

Então... eu havia passado... há algum tempo... pro Joe Joe... sobre o mercado imobiliário americano... também sobre o mercado de montadoras... meu amigo... eu sou o motivo da crise... dei o caminho pra ele foder com tudo! – “Você está louco cara! Nada a ver” – Estou louco é... você não sabe nada de nada meu camarada... estou aqui pra fazer você um cara famoso... pra ficar na história do jornalismo investigativo.

Uma pessoa vingativa, que está com sangue no olho se torna perigosa, certo? – concordo com a cabeça – agora pensa nesta pessoa perigosa só que com um diferencial – “Qual?” – o poder. Joe Joe está no poder. Ele tem poder. Chegou aonde queria. Não sei como ele fez isso. Sei que ele não é mais o mesmo. Está do lado de lá. É isso que sei – “Mas como você pode ter certeza disso?”.

Tudo bem... até a parte do GM você entendeu né? – “Acho que sim! Ele fodeu com a GM por causa da morte da filha?” – não cara... ele fez aquilo pra me avisar... ele acha que eu matei a filha dele. “Mas o que o mercado imobiliário tem a ver com isso?” – o mercado das hipotecas lastreadas, os financiamentos pra classe C e D nos Estados Unidos, tudo isso eu criei. Dei de mão beijada pra ele ajudar as classes mais baixas a financiarem suas habitações. Nunca larguei meus planos anárquicos porra.

Mas ele está desconstruindo tudo. Está insano. Antes eu era o insano. Agora eu sou a caça. Ele está atrás de mim. Não tem família, nem crianças, ninguém... ele não tem dó... você pelo menos imagina do que o Joe Joe é capaz! – “É... eu sei que ele é foda” – pois então... preciso me esconder... por enquanto vou ficar por aqui – “O que?” – vai negar moradia pra mim? – “Porra... mas você quer que eu vá pro saco junto contigo?” – amigo é amigo até no inferno – “Agora você é meu amigo né!” – acho que você vai precisar comprar mais vinho. Eu tenho dinheiro, não se preocupe. Vai ficar sem trabalhar durante um bom tempo. Vai ter que fazer a fachada pra mim. E os riscos serão grandes. Prepara-se – “É... já estou vendo o tamanho dos riscos... acho que vou ficar um tempo sem sono”.

Um comentário:

  1. É meu camarada... Os riscos, cada um cria o seu!!

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