segunda-feira, 9 de junho de 2014

A vida em degraus



Ele está no topo. Na cadeia do sistema, lidera na solitária.



Faz a ligação:



-       Fala chapa!

-       E aí?

-       O de sempre?

-       Isso.

-       Beleza. Já te ligo.



Com satisfação desliga o celular. Está no degrau mais alto, em algum lugar entre a luz e a escuridão; ou acima disso tudo.



Liga seu carro e vai pra casa. Euforia do dever cumprido. Ele está acima dos urubus.



“Compre seu politico, venda seu voto! Sempre dá certo quando se tem carniça de sobra”- enquanto pensa, o celular interrompe seu raciocínio:



-       Pode falar.

-       Na mão. Vou mandar alguém aí…

-       Não estou em casa ainda.

-       Quanto tempo?

-       Uns 40 minutos.

-       Tão fodeu…

-       Calma, já te ligo.








-       Tá, mas se acha que ele vai te matá por quê?

-       Porque eu devo pra ele, pô.

-       Cala a boca Xitoco, se pá ele te manda fazê uns lance… e pá… tá ligado?

-       Se pá ele mete um canhão na minha cara, isso sim…








“Sirva-se a vontade. Só não deixe de respeitar seu patrão”- e o celular mais uma vez interrompe seu pensamento:



-       Aí, não vai rolar…

-       Eu não disse que ligaria?

-       Tá sujo pra sair agora…

-       Mas não é pra agora.

-       Daqui 40 minuto quero tá longe…

-       Onde você está?

-       Centro. Faz assim, se tá onde?

-       Estou passando pelo centro.

-       Então hoje se vem pra cá?

-       Mas você não disse que está sujo aí?

-       Eu dô um jeito.

-       Então se agiliza.

-       Tá… fica pelo centro, eu já te ligo.








-       Dá uma bola aí e fica de boa…

-       Não quero.

-       Fuma aí, fica de boa cara…

-       Táqui o que eu vou fumá… ó….

-       Porra véio, faz dois minutos da outra… aí Xitoco, tu tá muito descontrolado mano.

-       Vô morrê mano…

-       Vai não…

-       No Guarujá mataru por menos… se acha u quê?








O trafica manda um dos seus chamar Xitoco na boca. Enquanto isso, ele faz mais uma ligação:



-       Seguinte: tá parado por onde?

-       Seguinte digo eu… resolvi passar na Boca Maldita e engraxar meus sapatos. Te espero lá, se agiliza.

-       Mas é o seguinte, não posso sair daqui. Vai um dos meus aí representá.

-       Eu conheço?

-       Não. Mas espera uma meia hora ou menos que vou representá.








Xitoco está descontrolado. Há um confronto químico dentro do seu corpo: cocaína x crack. E por ironia do destino, ele foi convocado!



Mas o chamado não o deixa nada feliz.



Como sabe das leis do mercado em que está metido, quanto mais próximo do seu patrão, no seu caso, pior…








Sabe o momento em que você fica paralisado com uma notícia que acaba de receber? Neste momento Xitoco acredita que recebeu um anúncio de morte.








-       Seguinte Xitoco: o patrão…. é…. quer dizer… um cliente grande aí tá lá na Boca Maldita engraxando o sapato. Teu trabalho é levar isso lá. Pá pum… jogo rápido… aí depois volta aqui…

-       Só levar?

-       Só.

-       E como vai ser? – pergunta Xitoco um pouco surpreso com a facilidade do “favor”.

-       Pega esse celular aqui ó… quando chegá lá, liga pra esse número aqui ó… tá gravado aqui no celular… aí mano… tu sabe mexê nessa porra aqui ou eu tô só falando aqui?

-       Calma, pô. Eu sei mexê na parada… – disse Xitoco já com o celular e a cocaína nos bolsos.








No sistema todos sabem que Xitoco é um quebrado de um usuário. Por isso foi escolhido, pois se cair não dá nada. E ele anda desequilibrado, passa as calçadas em direção ao centro de Curitiba. Sabe que esse pequeno corre não o livrará.



É total escravidão.



Apenas uma coisa leva Xitoco ao destino combinado: saber quem é o verdadeiro patrão. Na sua lógica, saber isso é ter A informação. Uma ascensão. É como subir um degrau.



Porém esse otimismo dura pouco. O celular toca:



-       Aí chapa, não vai foder com a parada… eu to de olho em tu… se ta ligado?

-       Tô ligado… tô indo lá porra… tô quase chegando.

-       Vamo vê…



E desligou.








A queda!

Voltar a si

Ao pé da escada

No seu caminho

Degraus infinitos








“O certo é somente aquilo que eu penso”- assim segue Xitoco.



Já próximo a Praça Osório, ele tem a “a ideia” de analisar o produto. Para o passo e aperta a parada entre seus dedos. “Caralho, tudo ‘impedrada’”- pensa eufórico.



Uma sensação de poder toma conta de Xitoco: “Seu lugar é meu!”- disse pra si quase sussurrando. E a partir de agora ele esquece tudo. Não quer mais saber do patrão, da dívida… de nada…



Seu sentimento é de ascensão. Na sua cabeça, a cada novo passo… sobe degraus. E só o seu topo o fará parar. “Ninguém segura o papai aqui!” – rasga um pedaço do papelote e com sua unha longa, usa a do mindinho, manda uma cafungada.






-       Porra, o filha da puta não atende – diz o trafica puto da cara. Ele delegou pra Xitoco a correria porque acredita ter um P2 o seguindo.



“Eu vô matá esse porra… desgraçado…”.



E o dito cujo agora vaga pelas ruas a consumir a “a parada do patrão”. É como se compartilhasse a sensação de estar num degrau lá no topo da pirâmide.








-       Sabe o que você é? Um incompetente…

-       Calma chapa, vou encontrar o cara…

-       Você e seus amigos são iguais. Você sabe o que acontece com gente burra?

-       O loco chefe! Qué isso?

-       Vou encontrar o seu lugar comum… um lugar onde todos iguais a você estão…

-       Que papo é esse?

-       Não esqueça, esse lugar vai encontrar vocês.



Ligação encerrada.






O patrão oculto ordenou e a proteção do trafica se retirou. Na hierarquia isso nada mais é do que uma ordem de cima pra baixo.



Diferente de Xitoco, que vê de baixo pra cima. Vislumbra um poder imaginário e, no mais profundo do seu ser, sonha ter outra vida.






Ele já andou em círculos durante um bom tempo. Agora vai ao lugar onde normalmente gosta de ficar, próximo ao Mercado Municipal de Curitiba. Não foge.



Está totalmente transtornado. Não consegue formar um raciocínio. As ideias se misturam. Senta no seu canto escuro, embaixo de uma escadaria. Já consumiu tudo. Falta pouco para o sol chegar. Mas o que ele espera na verdade é a morte.



Sozinho com seus fantasmas, agora ele vasculha seus bolsos. Está em busca da única coisa que sempre carrega consigo; um pedaço de papel já velho com o número de telefone da sua mãe.



Com o fone que “ganhou” em uma das mãos e com o papel velho na outra, aos prantos, faz a ligação.



O sol dá um pequeno sinal que está pra chegar. Xitoco com o celular no ouvido abaixa a cabeça e se esquece do mundo.



-       Alô – sussurra uma voz confortável e sonolenta…



Do outro lado da linha a mãe de Xitoco só escuta os disparos de pistola…






Por fim…



Xitoco e seus pares encontram um lugar comum.



E o patrão já tem seu novo exército. Esse que tentará subir, sem chão, os mesmos infinitos degraus.




Foto: Suhellen Dolenga / Texto: Regis Luís Cardoso
Texto publicado originalmente no blog Caos Descrito 

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